" Porta do Retorno" unirá África e os povos tradicionais de matriz africana

 Níger, Senegal e Brasil lançam projeto Porta do Retorno

Fonsanpotma dá passo histórico para acordo multilateral voltado à construção de plano de resgate dos danos causados às vítimas da diáspora africana no país


 Texto:Solon Dias || Fotos: Bruno C. Dias

“Porta do Retorno” deverá ser o nome de projeto que unirá interesses de povos tradicionais matriz africana do Brasil com o Senegal e o Níger. A definição de agenda comum deverá ser feita ainda este ano para a construção de plano de resgate dos danos causados na diáspora. A participação do Senegal e do Níger no projeto dar-se-á por conta dos sequestros de cidadãos livres em seu país há mais de três séculos. A maioria deles terminou seus dias como escrava no Brasil, passando pela Ilha Goné, onde está a porta dos que não retornaram — alusão ao embarque de africanos para a escravidão em solo brasileiro. O fato histórico inspira a ideia de construção de projeto de intercâmbio cultural voltado à garantia de sistema alimentar tradicional na África e no Brasil. Contrariando a máxima do não regresso, o projeto denomina-se Portal do Retorno.

A coordenadora-geral do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africanas, médica Regina Nogueira (a Kota Mulanji), revelou ser muito importante a manutenção do interesse entre os líderes dos três países. Segundo ela, um provável acordo multilateral deverá facilitar a materialização de conquistas, que estão sendo costuradas em cada um dos países envolvidos, para o resgate da dívida histórica existente com os povos de matriz e  africana e os povos africanos. A decisão de se intensificar as negociações ocorreu no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde se realiza a 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (5ª CNSAN), em Brasília.

Participaram das conversações os dirigentes de organizações da sociedade civil Mamane Salissou, do Níger; Ousseyou Ba e Gueye Mamadou, ambos do Senegal. Eles relataram à plateia de integrantes Fonsanpotma as “incríveis coincidências” que perceberam entre seus países e o Brasil. Contaram que a narrativa histórica do Níger e do Senegal mostra que traficantes e invasores europeus não se contentavam com a captura de cidadãos no litoral africano, pela facilidade de embarque, mas penetravam no interior, onde eram mais destemidos.

Salissou, Ba, e Mamadou mostraram, no encontro, que há pesquisas publicadas no Senegal e no Níger mostrando as coincidências de comportamento dos povos sequestrados e também das condutas dos seus descendentes no Brasil. Alguns pesquisadores, segundo Gueye Mamadou, sugerem estudos que levem ao intercâmbio entre Brasil e Senegal, em razão dos elos históricos  entre os dois países.

A quinta proposta, das 13 levadas à Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional pelo Fonsanpotma, trata justamente do tema, em que o fórum recomenda que o Brasil estabeleça “relações multilaterais com países africanos não apenas no que se refere à produção de alimentos, mas também à preservação de práticas tradicionais alimentares”.

Veja as fotos do encontro: Galeria de imagens

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